Translate

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O dia que o Pantanal foi falar com Deus

Cansado de sofrer e preocupado com o que vem acontecendo consigo, o Pantanal foi reclamar a Deus.
Os peixes queriam de volta o tapete de musgo que ficava no leito do rio. Os ovos deixados ali eram pisoteados por turistas, carros esportivos e não eclodiam mais, diminuindo diariamente a fauna aquática.

Sapos, rãs e pererecas estavam revoltados. Antes possuíam a maior orquestra da mata rasteira. Só perdiam para os passarinhos. As lanchas motorizadas e motos aquáticas varreram às margens dos rios, onde ficavam os berços dos girinos.
As onças e jaguatiricas alegaram que as rodovias obstruíram as trilhas que usavam para chegar às suas tocas. A onça velha era a mais chateada.
A raposa disse que estava faminta, pois suas presas eram atropeladas diariamente no asfalto.

As sucuris também alegaram estar famintas, pois com a especulação imobiliária, sumiram os seus alimentos prediletos.
As garças e seriemas disseram que as queimadas escasseavam as larvas e minhocas.
Os tuiuiús não conseguiam se equilibrar nas próprias pernas. Desfrutavam de jejum forçado devido ao sumiço dos peixes.
Capivaras, antas e pacas agiam com desconserto; pareciam enlouquecidas. O desmatamento acabou com os túneis centenários por onde transitavam com segurança.
Os passarinhos apresentaram uma lista de problemas que ia desde caçadores ao corte de palmeiras e árvores frutíferas, fonte de alimentação de todos. Os goivirais já haviam desaparecido da área.
Os macacos fizeram deles as palavas dos passarinhos, com o agravante de reclamar o sumiço dos cipós e árvores que lhes serviam de caminho para transitar nas matas. Agora estavam desprotegidos e seus filhotes diminuíram.

As abelhas também reclamaram que sua prole estava reduzida, que a produção de mel amargava a lotes insignificantes. Estavam tristes, pois muitos dependiam do que elas produziam; muitas empreenderam fuga do Pantanal.
O porco do mato compareceu carregado por outras espécies, pois estava magro demais para o esforço. Como era o mais idoso e sábio, faria colocações muito fundamentadas.
Os jacarés compareceram timidamente. Estavam acostumados a dominar grandes áreas. Agora, mais pareciam lagartixas grandes.
As lontras e ariranhas não foram. Como a sua espécie estava muito reduzida, mandaram um respeitoso bilhete, inclusive pediram desculpas. Preferiram montar guarda para seus filhotes e garantir a sobrevivência da espécie.
O tamanduá falou da escassez de formigas e outros insetos mortos pelo veneno trazido pelo vento. Os aviões espargiam inseticida nas lavouras e atingiam rios, matas e animais. Os peixes aplaudiam a reclamação, pois milhares deles morriam em tais empreendimentos.
O rio Paraguai compareceu representando os demais rios, riachos, córregos e nascentes. Fez abordagens sérias, inclusive que além de receberam esgotos, percebiam líquidos estranhos desaguando em suas áreas. Explicou que estava assoreado e não conseguia cumprir o seu papel natural como antes.
Os ipês-roxos foram escolhidos para representar quase toda a flora da região. Não havia como dizer "toda" porque algumas estavam extintas. Disseram que não conseguiam cumprir com regularidade o papel de refrescar a terra e ajudar na formação de chuvas regulares. As cidades, os pastos e as indústrias causavam assoreamento de igarapés, cavavam esgotos e provocavam danos de todos os tipos. Os ipês-roxos disseram que sentiam-se deprimidos por assistir ao sumiços de insetos, parasitas, trepadeiras, macacos, pássaros e tantas vidas que alegravam as matas. Disseram ser insuportável se restringir a pequenas reservas, sem comunicação com outros habitats, e ver o desaparecimento de mamíferos que não conseguiam sobreviver em espaços tão pequenos.
A terra, o barro e as areias contaram que se sentiam humilhados e, de certo modo, inúteis, sem húmus, viam-se condenados por assorearem os rios, causando mudanças geográficas, inclusive muitas erosões. Fizeram questão de explicar que não eram vilãs, mas vítimas do desmatamento, pois tinham como função natural segurar as terras com suas raízes, dentre outros papéis importantes.
A reunião duraria dois dias, mas como a pauta aumentava a cada discussão, demorou-se uma semana. Toda a fauna e flora sobrevivente compareceu, falou, reclamou e sugeriu. Diferente das reuniões dos homens, esse encontro foi muito respeitoso e organizado, fazendo jus ao quanto a natureza é perfeita.
Deus ouviu atentamente cada espécie.
Encerradas as reivindicações, Ele disse o seguinte, aliás, vou reproduzir literalmente sua fala, pois é é uma sentença muito bonita:
- "Querida Fauna, querida Flora, queridos minerais. Eu criei todo o Cosmo, os planetas e tudo mais que há neles, de maneira que existisse harmonia e equilíbrio entre todos os seres vivos e inanimados como as rochas, as areias,as águas e tudo mais.
Quando fiz o Pantanal, quis reproduzir uma pequenina parte do Jardim do Éden, pois imaginei que todos os homens e mulheres queriam saber como é o Paraíso Celeste, acaso escolhesse o amor como atitude diária.
O Pantanal é o milésimo de um grão de areia comparado ao Paraíso. Eu apenas quis dar a todos os biomas uma característica especial em todo o Planeta.
Infelizmente o homem foi o único ser, dentre milhares, que feriu outras espécies a ponto de até mesmo extinguir muitas.
Tudo o que ofertei ao homem foi gratuito. Só pedi que ele cuidasse, pois somente assim viveria em paz. Escolhi dar-lhe uma inteligência superior a todos os demais animais, justamente para que ele vivesse em paz e em harmonia com a mãe natureza.
Sei que existem alguns homens e mulheres protegendo o Pantanal e outros biomas no mundo inteiro. São pessoas realmente inteligentes e civilizadas. Mas são poucas!
Eu só tenho uma coisa para dizer-lhes:
Não posso fazer nada!
Sei que vos assusto com essas palavras, pois sei que não é o que esperavam ouvir de Mim.
Criei um Planeta perfeito para que o homem fosse o grande protetor, não o seu maior algoz. E ele o é.
Todos os biomas criados por Mim são pequenos pedacinhos do Paraíso na Terra: Pantanal, Serrado, Mata Atlântica, Amazônia, Pampa e Caatinga. Esses são apenas os do Brasil. Há inúmeros por todo o Planeta.
Eu não posso interferir na Terra ao gosto dos homens. Dei-lhes o livre arbítrio. Ofereci-lhes as Escrituras Sagradas como parte da harmonia que deveria construir, mas ele também não compreendeu o bastante.
Observem que tudo o que existe no Pantanal se fez presente ou mandou representantes, menos o homem. Ele parece não ter o mesmo interesse de vocês. Poucos têm buscado inspiração em mim para buscar a paz e a harmonia mundial.
Eu não posso interferir na inteligência dos homem, pois, depois da inteligência Divina, a maior inteligência na Terra é a do homem. Ele sabe que está errado, mas parece escolher sempre o caminho mais largo e fácil.
Mas há uma luz no fim do túnel e só o homem pode resolver. Na realidade eu tenho poder para transformar tudo no que era antes, assim como posso reduzir a pó num milésimo de segundo tudo o que há sobre a Terra. A luz que me refiro é a minha infinita bondade, já que, na Terra, só o homem tem o poder de decidir o caminho que quer seguir. Talvez vocês pensem que estou colocando o homem em situação superior a mim, mas não. Estamos em posições patamares completamente diferentes, assim como a morte é diferente da vida. O que quero e aguardo é que os homens se conscientizem e reconheçam que eles mesmos estão se auto-eliminando da natureza.
Vocês fizeram a parte de vocês. Cabe a eles fazerem a parte deles. O dia que isso acontecer, não apenas o Pantanal, mas todos os biomas e, consequentemente, todo o Planeta voltará a ser Paraíso. JULHO/1996

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O SURGIMENTO DE UMA ESCOLA... A MANOEL DA COSTA LIMA

Em 1989, organizei a exposição de um acervo que juntei ao longo do tempo sobre a História e a Memória de Bataguassu. 
Para enriquecer a mostra, contei com a sensibilidade de alguns moradores mais antigos, reunindo objetos/materiais/documentos de pessoas como D. Kimie Kavanami de Lima, Sr. Ambrósio, Dona Olga, Sr. Aparício, D. Guiomar Cardoso, meu pai, José Amaro Freire, Sr. Kubik, D. Diva Câmara, enfim de várias pessoas. 
A exposição foi um sucesso, e todas as escolas prestigiaram, conforme mostram as fotografias.
Quando estive em Bataguassu, há 12 meses, deparei-me com esse velho documento denominado: "Registro de Matrícula e Frequência de Alunos", da "Escola Mista Rural Vale do Ivinhema", em Bataguassu, ano: 1946, o qual esteve na exposição. Era a semente do que se tornaria muitos anos depois a Escola Estadual Manoel da Costa Lima.  Não estou dizendo que a EEMCL surgiu em 1946. Muitos anos antes de Jan Antonin Bata aparecer na área, já existiam algumas escolas subordinadas a Rio Brilhante pelas redondezas, inclusive na Fazenda Uerê. Como Bataguassu era distrito desse município, à época, a "Escola Mista Rural Vale do Ivinhema" era uma delas. Muitas eram meros ranchos.
Quem pensa que a EEMCL foi a primeira escola de Bataguassu está enganado, mas, inegavelmente, a "Escola Mista Rural Vale do Ivinhema", por estar situada na área que futuramente se tornou o centro de Bataguassu, pode ser considerada o croqui da EEMCL.
Com relação ao documento, trata-se de um material muito rico em informações, pois além de revelar os nomes dos alunos da época, traz os nomes dos pais, as idades, os endereços, as funções dos pais etc.
Revendo essas velhas fotografias, resolvi construir esse texto. Não trago nada de novo (exceto para quem não conhecia esses detalhes). E para ajudar, contextualizei com o registro de alguns episódios da nossa velha escola.

Inauguração da Escola Manoel da Costa Lima - Nesse dia, Edite Bata,  filha de Jan Antonin Bata descerrou a fita que a inaugurava.
Assim teve início a Escola Manoel da Costa Lima - Muito tempo depois, esse acanhado pátio foi fechado para dar origem a mais duas salas de aula. Nos fundos construíram um pátio que pegava de um lado ao outro. Depois o lado direito recebeu degraus e  uma porta, transformando-se na Sala de Professores (ainda desfrutei dessa arquitetura). Para saber o ângulo dessa fotografia, imagine que você estava defronte ao "Clube do Didi" e deu um 'click'.
Esse era o cenário da época
Edite Bata no momento da inauguração junto às demais autoridades.
Escola Estadual Manoel da Costa Lima, construída durante a gestão de Ênio Martins;aspecto moderníssimo para a época (Acervo: S. Oliveira)
Muito tempo depois foi erigido um moderno e amplo prédio (Acervo: S. Oliveira)
Como se faz até hoje, os desfiles cívicos percorriam as principais ruas. Aqui passa pela Avenida Campo Grande.
Essa fotografia mostra dois momentos da Manoel da Costa Lima. O primeiro é aquele espaço que vimos acima, inaugurado pela filha de Jan Antonin Bata (observe que já havia sido ampliado); à direita vemos o moderno prédio.
Novamente passando pela Avenida Campo Grande, mais um desfile cívico, há 52 anos.

Flagrante de um momento educativo no interior da "Manoel".
Alunos da Escola Manoel da Costa Lima acompanhados de alguns professores. Da direita para esquerda reconheço minha irmã, Lúcia Freire Mainente, Lúcia Thomazine (dona da foto), Bertoni, e os demais não me lembro.

Registro de um dia aparentemente calmo Escola Estadual Manoel da Costa Lima
 A história dessa escola é mais ou menos assim... primeiro foi lançada a semente, depois vieram as vergônteas e os galhos se enrijeceram. Formou-se a árvore que deu outros galhos, muitas flores e frutos, e esses frutos continuam se espalhando sob as mais diversas nuanças. Não tem fim...
Em primeiro plano, "sala dos professores" seguida das salas de aulas. Essa é a parte mais antiga da escola, oriunda daquele espaço que foi inaugurado pela filha de Bata, conforme fotografia anterior (Acervo S. Oliveira).



O povo assistindo a mais um desfile da EEMCL, defronte ao coreto de madeira da Praça Jan Antonin Bata. O prédio, em destaque, era do Sr,"Monoel Alemão", futura "Mercearia do Vilela". A construção de madeira, adiante, era a casa do Sr. Expedito, vigia da antiga prefeitura. Era esposa da D. Francisca (pais do "Curió"). Ali, nessa ocasião, funcionava o Comitê do "MDB" de  Ênio Martins, conforme estampam o letreiro de Borges Berto.
EEMCL em desfile (Acervo: S. Oliveira).





segunda-feira, 18 de julho de 2016

AS FESTAS AMERICANAS EM BATAGUASSU

Muito ponche, salgadinhos, LP's de vinil girando numa radiola, conversa jogada fora, risadas e alegria. Essa era a tônica das festas americanas da Bataguassu da minha adolescência. Não sei se foi exclusividade da minha geração ou ioiô de modismos, mas foi algo viral na minha época de adolescente. E como ninguém é adolescente sozinho, quase todos se revezavam na organização dessas festas cobiçadas.
Embora não havia nada de negativo nesses eventos, nem todos os pais cediam espaço e tampouco permitiam que os filhos o apreciassem. A autorização dependia da cultura de cada família. Nem todos eram abertos para receber um monte de adolescentes em suas casas até a meia-noite. O horário não passava disso. Às vezes até menos.
Normalmente o espaço utilizado era a sala ou a varanda. Por mais que fosse algo ingênuo – comparado a muita coisa que vemos hoje – alguns pais a interpretavam como invencionice boba de jovem. Coisa de "gente rebelde que dita moda degradante para ferir a honra e a moral da família" (pensariam assim?!). Imagine se tais pais vissem uma balada regada a comprimidos de êxtase e cocaína como acontece tantas por aí, muitas vezes com consequências terríveis.
Mas voltando ao assunto, tais festas pediam organização prévia. O primeiro passo era um anfitrião (ou anfitriã) para recepcionar os amigos. Depois fazia-se uma lista de comes-e-bebes, e cada um dava um produto. Era só esperar pela noite. O ponche era preparado pelas meninas à tarde para que a bebida adquirisse uma delicada fermentação. Se feito na hora não tinha gosto. A fermentação branda das frutas emprestava um sabor especial à bebida, agravando o teor alcoólico. Mas como a quantidade de vinho era muito reduzida, ninguém ficava bêbado, por mais que as bochechas esquentassem. Apenas os salgados eram preparados por último.
O ponche era feito com vinho misturado em água, açúcar e pequena variedade de frutas picadas. Quase sempre se usava uva, laranja, maçã e abacaxi. Algumas pessoas eram cuidadosas e picavam em tamanhos minúsculos. Outras deixavam nacos imensos. Havia quem o preparasse de modo mais sofisticado, acrescentando champanhe, suco de laranja ou limão. A iguaria era preparada em caldeirões ou panelões grandes de alumínio. Na hora de servir, colocava-se em vasilhas mais apresentáveis, abastecendo-as à medida que iam sendo consumido. Alguns nem se importavam em servir ali mesmo no balde.
Ao lado da vasilha do ponche, sobre um prato, ficava uma concha usada para retirar a bebida. Às vezes disponibilizavam uma vasilha paralela, com gelo. Outros já despejavam o gelo assim que preparavam a bebida. Desse jeito quem vinha por último tomava uma espécie de garapa.

Outro atrativo da "festa americana" era os salgadinhos. Normalmente os participantes levavam bandejas com coxinha ou pastelzinho. Não passava disso. Algumas meninas – prendadas – faziam com muito capricho, outras deixavam a massa semelhante à sola de sapato, quando não, salgavam demais. Mas tudo se resolvia com um gole de ponche. O ponche era o principal de uma "festa americana", por isso se fazia em grande quantidade. Quem organizasse uma festa com pouco ponche passava vergonha. Lembro-me de uma festa em que flagrei um grupo criticando a anfitriã, suspeitando que a mesma havia ficado com parte das frutas e feito o ponche com a metade do que foi arrecadado.
Mas não acaba aí. A "festa americana" era uma desculpa para uma cidade sem danceteria. Não existia a “Badallus Club”. Na realidade, era como fazer da casa alheia a sua pista de dança, ou a sua discoteca, danceteria etc. Nesses embalos de sábado à noite as agulhas das radiolas sulcavam Olívia Newton John, Menudo, John Travolta, Pholhas, Bee Gees etc etc etc. Acontecia também de o participante chegar com um LP debaixo do braço. Nesse ponto a festa era bem democrática. Engraçado era quando um disco arranhado empacava exatamente na melhor música. Ficava repetindo um trecho até que alguém corresse até a vitrola e passasse para a próxima faixa.
Um detalhe curioso desses momentos descontraídos era o fato de o som não ser alto. As próprias radiolas nem permitiam o som explosivo como se vê nas baladas atuais. A vantagem era que isso permitia aos jovens dançar e conversar numa boa, sem gritar. Havia uma química saudável entre o som e a conversa. E obviamente não se incomodava os vizinhos.

Uma grande anfitriã de “festa americana” em Bataguassu foi a senhora Deise do Amaral Campos Prieto, a qual tinha uma mente jovem e acolhia a todos com simpatia e delicadeza. O interessante nesses momentos descontraídos era a aura familiar e saudável. Os pais – ou as pessoas mais velhas – permaneciam no evento com naturalidade, ocupados em algum afazer ou em ambientes mais reservados, assistindo TV.
E foi nessa "efervescência cultural" que muitos namoros surgiram. Alguns até findaram em marcha nupcial. Houve quem "fugisse" da festa americana para o início de uma vida conjugal. No outro dia as línguas tilintavam nos céus das bocas: "... a filha de fulano fugiu!"
Oh!
Mas, depois, tudo se resolvia. Muitos "casamentos fugidos" duram até hoje (creio), em detrimento de casamentos feitos nos moldes tradicionais, diluídos com o tempo. E também foi nessas festas que muitas amizades surgiram e se fortaleceram até os dias atuais.
Certo dia apareceu em Bataguassu a "Danceteria Badall'us Club" e pôs abaixo as festas americanas... não teve mais graça fazê-la. Quem iria concorrer com um espaço, moderno, jovem, e cheio de novidades?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A COMPLEXIDADE DA MENTE HUMANA - É SEMPRE BOM OS PAIS BUSCAREM "O OLHAR RAIO-X"

 
Acabei de ler este livro - lançado recentemente - e o recomendo a todos os professores e pais (principalmente); obviamente que psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, neurologistas também o leram, mas se ainda não o fizeram, é bom. Com certeza, muito se lembram desse fato que chocou o mundo. Não dá para entender como dois adolescentes entram numa escola e saem matando quem encontram pela frente. É algo inexplicável. O assunto é complexo demais. Lembro-me ter lido há muito tempo diversas pessoas condenando os pais de ambos os garotos, mas é muito injusta essa sentença, pois tratam-se de pessoas que tinham os pés no chão e educaram os filhos com a devida rédea.
É até compreensível perceber hostilidades por parte de quem desconhecia como esses jovens foram educados principalmente por Dylan, afinal mataram mais de 20 pessoas, e de forma bárbara, deixando várias com sequelas eternas. Mas os pais não podem ser culpados - execrados - se só ensinaram a esses jovens o caminho correto, proporcionando-lhes tudo o que puderam para que eles fossem cidadãos de bem.
SUE KLEBOLD
Como a autora é mãe de Dylan Klebold, me atenho mais aos aspectos dessa família, a qual educou os filhos da maneira mais correta possível. Ele foi educado com aquela liberdade saudável, mas os pais não admitiam que ele falasse mais grosso ou emitisse o mais simples dos palavrões.
É incrível a honestidade como a mãe escreve. Há imparcialidade. Ela finda admitindo que era mãe de um monstro, embora não deixa de externar amor infinito ao filho que ela desconhecia. Dylan era um suicida em potencial e guardava todos os seus planos de forma imperceptível ao pai, a mãe e ao irmão. Jamais alguém poderia imaginar o que estaria por acontecer, vendo aquele filho tão amoroso. Infelizmente tinha uma personalidade influenciável, submetendo-se às ordens de Erich, um jovem psicopata sanguinário que estudava com ele na Escola de Columbyne.
Sue Klebold abre o coração. Deixa sua alma transparente. Dylan era um filho tão decente que não dava margens para que ela o enxergasse como capaz de tamanha insanidade e perversidade. Ela passou muito tempo apegada a imagem do filho que conheceu por fora (filho maravilhoso) e portanto desconhecia o filho que ele era por dentro.
O livro ajuda os pais a lançar um novo olhar aos filhos. Precisamos olhar os nossos filhos sob todas as dimensões. Sem paranoias, obviamente, mas observar mais. No caso de Dylan, ele não gostava da vida. Pensava apenas em morrer. Nunca permitiu que alguém percebesse isso. E nessa paranoia teve um surto e levou mais um monte com ele no dia do seu suicídio.
Tivemos um caso parecido, no Rio de Janeiro, conhecido como "O Massacre do Realengo". Muitas vezes pensamos que as coisas só acontecem nos EUA, e nos enganamos, afinal é tudo fruto da mente humana.
DYLAN KLEBOLD
Creio que o grande erro está na incapacidade de as escolas enxergarem mais os seus alunos. Com certeza não é unicamente o amor familiar que impediria uma tragédia desse tipo. Ao mesmo tempo dá um nó na cabeça, pois muitas vezes um bom profissional não enxerga ou não está preparado para o "olhar de raio-x".
É comum a pais e mães buscarem fórmulas para se educar os filhos, como se existisse uma "receita infalível da vovó". Às vezes busca-se uma espécie de receita mágica, mas tudo isso é em vão. A própria família Klebold era uma família normal. Ela relata alguns episódios problemáticos vividos na pré adolescência de Dylan, mas nada que se deduza ter sido a causa. Há, inclusive, situações-problema muito próximos a qualquer um de nós, muito piores - sobre adolescentes desvirtuados - e que não se tornaram um matador ou algo parecido. Nem sempre quem sofre bullyng fará vítimas. Às vezes uma vítima do bullyng fará o mesmo em outro lugar. As coisas são muito relativas. De um lar muitas vezes tirano pode sair um anjo. Vê como a fórmula não é a fórmula! A coisa está dentro da pessoa e precisa ser enxergada (daí aquela coisa do olhar redobrado/profundo/perscrutante... meio raio-x).

Uma vez eu disse "na lata" a um pai pastor protestante: "conhecemos os nossos filhos quando os desconhecemos". Meio hostil, ele queria me obrigar a rasgar uma advertência, a qual o seu filho havia feito jus. Ao ouvir isso ele teve um choque. Ficou parado me olhando e foi embora. A partir daí começou a olhar o filho de outro jeito. O garoto era outro no ambiente escolar. Não era o que o pai via em casa. Havia um outro 'eu' naquele menino. E esse outro eu era invisível na casa do pastor. Um dia esse pastor me encontrou na rua e me abraçou. Tenho impressão que ele colocou o seu detector de "coisas perigosas do filho" para funcionar, e o consertou a tempo.
É muito difícil. É complexo.

A partir do momento que uma criança põe o pé na rua, enfrentará conflitos, e se não estiver preparada pela escola e pela família, nutrirá as suas neuras (muitas vezes em silêncio). É na sociedade (no mundo/lá fora) que ela será ela, que ela encontrará seus amigos, seus falsos amigos, SEUS ALGOZES... suas vítimas.
ERICH
Às vezes a timidez, aliada a um complexo de inferioridade, a obesidade, um olhinho vesgo, "um jeitinho esquisito", uma deficiência física enfim algo que "fuja a padrões culturais", pode se transformar numa grande tragédia futura. Algumas vítimas de preconceitos - ou pessoas rejeitada por grupos - ainda extravasam, mas outros guardam para explodir de uma vez só. E da pior forma.
No meu entendimento as escolas, os professores e pessoas da área da educação estão meio medievais nesse sentido, pois cabe a elas olhar com profundidade cada aluno. Há profissionais da educação que fazem vistas grossas para não se indispor com alguém ou não ter um trabalho a mais. A escola também é a mola propulsora para as piores coisas, pois, diferente da casa onde ela mora (onde só está a família) estão todos.
TOM KLEBOLD
Há alguns anos uma escritora amiga me disse que seu filho começou a usar droga numa renomada escola católica de Natal. Os encontros, as mancomunações, os acordos eram feitos dentro da escola e extravasavam fora dela. A escola era o "escritóriao de planejamento". Vejam como são as coisas.
Muitas vezes o início de uma tragédia começa debaixo dos olhos de um professor/diretor/funcionário escolar... pais. A banalização do bullyng, por exemplo, impede de se ajudar muitas vítimas, sejam crianças ou adolescentes.
Na realidade tudo é muito complexo. Não existe um truque mágico, mas olhar mais, e com outro olhar - o filho/aluno - é muito importante.

sábado, 9 de julho de 2016

BATAGUASSU - CAPACITAÇÃO PARA O MOBRAL - 1985

Os cursos de formação profissional para professores, seja onde for, sempre pedem uma autoridade no assunto, assim trazem novidades, atualizando a classe. Esta fotografia, feita na "Escola Marechal Cândido Rondon", mostra o então professor Mongelli, respeitável educador sul-matogrossense numa grande aula para os professores do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL). A professora Vanilda Ricartes (sapato vermelho) era a Secretária Municipal de Educação na época.

O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi um órgão do governo brasileiro, instituído pelo decreto nº 62.455, de 22 de Março de 1968, conforme autorizado pela Lei n° 5.379, de 15 de dezembro de 1967. 
A criação do MOBRAL, durante o regime militar, é considerada como uma resposta ao método de alfabetização de adultos preconizado pelo educador Paulo Freire que se tornara persona non grata ao regime. O marco de seu projeto teve início em Angicos, no Rio Grande do Norte, então denominado "De pé no chão também se aprende a ler". De todo modo, o método de alfabetização usado pelo MOBRAL era fortemente influenciado pelo Método Paulo Freire utilizando-se por exemplo do conceito de "palavra geradora". A diferença é que o Método Paulo Freire utilizava palavras tiradas do cotidiano dos alunos, enquanto, no MOBRAL, as palavras eram definidas por tecnoburocratas.
Vinculado ao Ministério da Educação e Cultura era o órgão executor do Plano de Alfabetização Funcional e Educação Continuada de Adolescentes e Adultos, cujo principal objetivo era o de promover a alfabetização funcional e educação continuada para os analfabetosde 15 anos ou mais, por meio de cursos especiais, com duração prevista de nove meses.
Embora formalmente criado em 1968, o MOBRAL só foi efetivamente implementado a partir de 1971.
Durante mais de uma década, jovens e adultos frequentaram as aulas do MOBRAL. A recessão econômica iniciada nos anos 80 inviabilizou a continuidade do programa. A partir de 1985, com o fim do regime militar, a Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) passou a se chamar Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos - EDUCAR. Em 1990, a Fundação EDUCAR também foi extinta.

BATAGUASSU: 36 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Desfile cultural em homenagem aos 36 anos de Bataguassu, ocorrido em 1990. Na fotografia, só reconheço Maikel Botelho e o filho mais velho da Srª Neuraci Herestek (trajados com roupas folclóricas de portugueses) Tenho impressão que, ao fundo, de camiseta branca e calça preta, segurando uma bola, é Alexandre Wisney de Mattos, filho da Profª Eva.

Nota-se a área urbana ainda familiarizada com o verde das árvores, muitas delas frutíferas, graças aos quintais e quarteirões amplos, numa época em que a Cia São Paulo Mato Grosso vendia os lotes a preços abaixo do mercado para atrair moradores.
A imagem revela ainda a presença das antigas casas de madeira, as quais estão ficando cada vez mais escassas em Bataguassu, cedendo espaço para as modernas construções em alvenaria de tijolos e concreto. Vemos, na esquina, a farmácia do "Velho Kavanami", já falecido nesta época, e a Escola Estadual Manoel da Costa Lima em seu formato original.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ZDENECK PRAKUCH: SUA ESTADIA NOS PRIMÓRDIOS DE BATAGUASSU


Como sabemos, Zdeneck Prakuch veio refugiado da antiga Tchecoslováquia e logo em seguida acabou se encontrando com o famoso conterrâneo Jan Antonin Bata. Por sua ilustração ele findou dando vazão à sua veia empresarial, tornando-se um grande executivo na área de calçados, em Franca/SP. Também escreveu livros e assinava artigos em jornais paulistas. Era um intelectual também. Nas suas estadias em Bataguassu, foi um grande colaborador do fundador desse município, inclusive agilizou e acompanhou a construção da casa onde Bata morou. São de seu acervo as fotografias abaixo. Na entrevista, abaixo, feita pela professora Georgia Carolina Capistrano da Costa, o leitor pode conhecer um pouco mais sobre esse pioneiro que contribuiu com os primórdios da nossa cidade.



Em  2013 o consultor calçadista Zdenek Pracuch. morreu aos 85 anos, de câncer no intestino. Essa é uma de suas últimas fotografias, flagrada por Marcos Limont. Minha irmã, Regina Freire, ainda conseguiu manter contato com ele, alguns anos antes e obteve informações preciosas sobre o primeiro cinema de Bataguassu. É uma bela história que em breve será contada neste blog.